Eleições em Itália

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Sondagens recentes apontam para a impossibilidade das diversas áreas políticas constituírem governo. Campanha eleitoral marcada pela subida do nacionalismo em várias regiões. Processo eleitoral complexo dificulta decisões dos votantes. 

As eleições para o Parlamento italiano terão lugar no próximo dia 4 de Março. Os eleitores são chamados a eleger os representantes de duas câmaras, a dos Deputados e a dos Senadores. As últimas sondagens apontam para a impossibilidade de qualquer um dos grupos políticos reunir apoios suficientes para formar Governo. Entretanto, a AgCom, a autoridade de regulação da comunicação social, proibiu os meios de informação de divulgarem sondagens nos últimos 15 dias antes do escrutínio.

Forças em confronto

YouTrend tem sido uma das agências de avaliação política mais conceituadas em Itália. Os resultados obtidos pela sua média de várias sondagens publicadas em Itália dariam a vitória ao Movimento 5 Stelle de Beppe Grillo. A jovem formação política, fondada em 2009, é o resultado de um conjunto de comícios liderados por Grillo, antigo comediante. As 5 Stelle (5 Estrelas) promovem um sistema de democracia directa através de uma plataforma online desenhada por Gianroberto Casaleggio, um antigo marketeer falecido em 2016. O novo partido lidera as cidades de Roma e Turim com resultados mitigados e tem sentido dificuldades em concretizar as suas promessas de escolha directa. Um partido nem de esquerda nem de direita que luta contra a corrupção na política italiana. São a favor da eutanásia e do aborto mas contra o casamento de casais do mesmo sexo ou leis mais liberais sobre a imigração.

Coligação à direita

Surge à direita do espectro político italiano uma coligação encabeçada por Silvio Berlusconi, uma figura sui generis da política mundial.  O antigo primeiro-ministro italiano continua proibido de candidatar-se a cargos públicos até 2019. Berlusconi não exprimiu a sua preferência para o cargo de primeiro-ministro até ao momento. Restam dois elementos da coligação que poderiam aspirar a serem líderes do executivo.  Giorgia Meloni lidera o partido Fratelli d’Italia (Irmãos de Itália), uma formação de centro-direita que poderá até, nas piores circunstâncias, nem sequer entrar no Parlamento devido à complexidade da lei eleitoral italiana. O outro grande candidato é Matteo Salvini. O líder da Lega, antiga Lega Nord, formação separatista do norte de Itália, é a grande figura da campanha eleitoral. Lidera um partido de extrema-direita focado nas questões da imigração, o grande tema das últimas semanas. Caso o seu partido (13,4%) supere a votação de Forza Italia (16,4%), o partido de Berlusconi, Salvini poderia aparecer como líder da coligação na manhã do dia 5 de Março.

Governo à deriva  

O governo liderado pelo Partito Democratico (PD) de Matteo Renzi tem, mês após mês, perdido pé nesta campanha. Em 2014. Matteo Renzi, recém-empossado como primeiro-ministro, disputa as eleições europeias e obtém uma vitória esmagadora ao superar os 40% de votos favoráveis. Esta marca daria, no contexto actual, a maioria nas Câmaras. Porém, Renzi decide colocar em jogo a liderança do país ao convocar um referendum constitucional. Promete sair em caso de derrota e, após a votação de 2016, abdica do lugar a favor de Paolo Gentiloni. O último ano tem sido marcado pela descida constante nas sondagens e a incapacidade de criar uma coligação à esquerda. O outro grande movimento político é a nova formação Liberi e Uguali que também reúne antigas figuras do PD.

Campanha marcada por violência

A 5 de Julho, Emmanuel Chidi Namdi, foi assassinado na região das Marcas, no centro de Itália. Namdi era um candidato a asilo político após ter fugido, com a sua amiga Chinyery, da Nigéria onde sofreu um ataque por parte das forças de Boko Haram. O assassinato de Namdi foi provocado por Amedeo Mancini que pactuou uma pena de quatro anos de prisão em Janeiro de 2018. Matteo Salvini, após repugnar o ataque, defendeu uma política de limitação à entrada de imigrantes no território.

A 3 de Fevereiro, seis pessoas são atingidas por um tiroteio em Macerata, no centro de Itália. O responsável pelo ataque terrorista é Luca Traini, um jovem de 28 anos, neo-fascista que confessa o crime junto das autoridades. As motivações racistas do crime provocam fortes tensões na campanha eleitoral. Os casos de Namdi e Traini dividiram os líderes políticos mas também a população italiana.

O último fim-de-semana antes das eleições ficou marcado por diversas manifestações anti-fascistas em várias cidades italianas, incluindo Roma e Milão. Vários confrontos ocorreram nos cortejos em muitos pontos do país. Ao mesmo tempo, Matteo Salvini discursava na praça central de Milão, a Praça do Duomo, afirmando o seu “compromisso e juramento de ser fiel ao seu povo, a 60 milhões de italianos e de servi-lo com honestidade e coragem”.

Lei eleitoral complexa

A lei eleitoral italiana não irá ajudar a resolver a equação entre os diferentes partidos em confronto. Em cada círculo eleitoral, a lista do candidato mais votado é eleito automaticamente. Porém, os lugares seguintes a atribuir nas Câmaras dividem-se de modo proporcional. O novo modelo chamado Rosatellum foi aprovado no ano passado e terá tendência a favorecer coligações como a que é composta por Berlusconi e Salvini. No entanto, sendo a primeira vez que este sistema é testado, diversos quadrantes da sociedade duvidam da capacidade das sondagens em anticipar os cenários pós-eleitorais.

A Itália vai a votos no domingo 4 de março sob forte instabilidade social e política. Mas muitos italianos não perderam o sentido de humor e saudaram o episódio a eles dedicado por John Oliver em Last Week Tonight.

Sobre o autor

David Fernandes

David Fernandes | Director de Periferia

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